Genética Fotográfica

Desde que estudo fotografia, sempre ouço falar sobre criatividade e processo criativo em fotografia. Recentemente um infográfico muito interessante foi postado no site Fós Grafê: “Como Acontece o Processo de Criação do Fotógrafo”.

Quando vi a postagem, lembrei de um livro que li recentemente e me veio a ideia de escrever este post. Analisando o infográfico, vemos o processo até o momento em que a foto é tirada. Todos os itens que são mostrados realmente influenciam (e muito) as escolhas que fazemos até o momento da foto, mas creio que esta não necessariamente esteja pronta nesse momento. Salles (2008) diz que o processo de criação é um ato contínuo de tomada de decisões. E, de fato, em todo momento estamos decidido qual técnica usar, qual enquadramento, etc. E essa tomada de decisão não para no momento do clique. Após a foto feita, o fotógrafo pode alterá-la na chamada pós-produção, tal e qual um escritor o faz quando está escrevendo um livro:

“O autor é mais leitor que escritor. É sempre possível corrigir, modificar, anular, enriquecer o enunciado produzido. Essas correções são mais efeito da leitura que da escritura propriamente dita.” (SALLES, C. A., “Crítica Genética”, 2008, Educ).

E o mesmo vale para a fotografia, tanto quanto deve valer para outras manifestações artísticas. O que chamamos de pós-produção, na minha opinião talvez nem devesse ser chamado de pós-produção, pois o autor ainda está a produzir. É sempre possível fazer um novo crop, aplicar um filtro, modificar parâmetros e, mesmo após ter feito isso, é ainda possível desfazer e refazer, com novas escolhas.

Claro que nem sempre isso acontece, pois as vezes a foto do jeito como foi feita basta para o resultado que o fotógrafo deseja. E tudo bem, pois isso também faz parte do processo criativo, e como tal, é também uma decisão válida.

Salles (2008) ressalta que o artista é o primeiro receptor de sua obra ainda em construção, e o mesmo acontece com o fotógrafo. Quando na pós-produção, o fotógrafo é o primeiro a ver a foto após suas escolhas, e essa recepção é também avaliativa e julgadora. Nesse momento ele pode repensar aquilo que vê, fazer novos ajustes e cortes (ou não). Isso também faz parte do processo criativo, e não é exclusividade da fotografia digital, pois a manipulação fotográfica sempre existiu. É importante frisar que nessa manipulação também é possível flagrar a presença do autor e de suas escolhas, logo, o processo criativo fotográfico não termina na hora do clique.

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Bibliografia:
SALLES, C. A. . Crítica genética: fundamentos dos estudos genéticos sobre o processo de criação. 3ª. ed. São Paulo: Educ, 2008. v. 1. 136 p.