Os selfies de Ron Mueck

(Atualizado em 24/02/15 @ 07:40:00)

Estive, neste sábado, 14 de fevereiro, visitando a Exposição Ron Mueck na Pinacoteca do Estado de São Paulo. A exposição do escultor australiano é impressionante tanto pelas alterações de escala da figura humana, como pela verossimilhança das texturas e rugosidades que apresenta em suas obras. Mueck utiliza diversos materiais que incluem resina, fibra de vidro, silicone, acrílico, cabelos humanos e sintéticos e com eles, reproduz em suas esculturas, detalhes espantosos da anatomia humana.

Mas tudo isso já é sabido, tanto para quem leu o texto sobre a exposição, como para quem a visitou e conseguiu – de fato – ver as obras. Eu não consegui. E pelo jeito quase ninguém conseguiu. Eu resolvi que vou visitar novamente a exposição antes de seu término, por que a visita no sábado foi frustrante. O que eu vi foi a cultura egoica do selfie e a necessidade de expor às redes sociais um status, mostrar o que se fez/faz sem que sequer tenha-se feito de fato.

Mask II - 2002 (Máscara II - 2002)
Mask II – 2002
(Máscara II – 2002)
Mask II - 2002 (Máscara II - 2002)
Mask II – 2002
(Máscara II – 2002)
Mask II - 2002 (Máscara II - 2002)
Mask II – 2002
(Máscara II – 2002)

A Pinacoteca estava absolutamente lotada. Havia uma fila que dava a volta no quarteirão do Parque da Luz. Guardadores de carro e vendedores ambulantes de toda sorte de bebidas faziam a festa, tudo sob o sol forte e calor, protegidos apenas pelas escarças sombrinhas.

Após a via sacra para conseguir entrar, quando cheguei à porta que dá acesso à primeira sala onde estão às obras da mostra, havia um guia do museu aguardando formar-se uma fila para explicar como deveria ser seguida a visita e dar aquelas conhecidas instruções sobre como se comportar em um museu: não fotografar com flash, respeitar a faixa cinza que havia no chão, etc e tal – tudo foi dito em alto-e-bom-som. E todos acenaram quando ele perguntou se haviam entendido. Mais tarde eu viria a pensar sobre essa cena com o guia: “sabe de nada, inocente”.

Drift - 2009 (A deriva - 2009)
Drift – 2009
(A deriva – 2009)
Mulher com sacolas – 2013
(Woman with shopping – 2013)
Still life – 2009
(Natureza morta – 2009)

Quando ele abriu a porta e permitiu entrar, o barulho no interior da sala era maior que do exterior (!!!). Quando vi o que teria de enfrentar para ver as obras, desisti de vê-las. Era um empurra-empurra, uma gritaria, uma total falta de educação, e não era uma demonstração de tietagem para com as obras, era só para fotografar a obra e fazer os selfies. As pessoas não queriam ver, vinham com o celular em punho, câmera ligada, se acotovelando para fotografar e postar a foto. Alguns faziam 2 cliques: um da obra, outro de um selfie com a obra atrás e… só. É! SÓ! Em, sei lá, 15 segundos já iam para a próxima obra da mostra e assim sucessivamente. Com isso, ficou explicado para mim por que a fila andou relativamente rápido.

Woman with sticks - 2008 (Mulher com galhos - 2008)
Woman with sticks – 2008
(Mulher com galhos – 2008)
Woman with sticks - 2008 (Mulher com galhos - 2008)
Woman with sticks – 2008
(Mulher com galhos – 2008)
Juventude - 2009 (Youth - 2009)
Juventude – 2009
(Youth – 2009)

Tudo bem, não vamos generalizar: havia uma meia dúzia que até fazia fotos, mas viam a obra. Não vejo problema em fazer fotos, de forma alguma. Eu também fiz. O problema é a cultura – ou falta de – na hora de visitar um museu, ver uma obra. Eu passei a observar muito mais o comportamento das pessoas que as obras de Ron Mueck.

Homem em um barco - 2002 (Man in a boat - 2002)
Homem em um barco – 2002
(Man in a boat – 2002)
Casal debaixo de um guarda-sol - 2013 (Couple under an umbrella - 2013)
Casal debaixo de um guarda-sol – 2013
(Couple under an umbrella – 2013)
Casal debaixo de um guarda-sol - 2013 (Couple under an umbrella - 2013)
Casal debaixo de um guarda-sol – 2013
(Couple under an umbrella – 2013)

Lembrei do bate-papo do Iatã Cannabrava com a Jessica Lange que ocorreu no último dia 10 de fevereiro, na abertura de sua exposição no MIS. Jessica Lange não gosta de selfies e falou sobre isso na abertura de sua exposição. Ela comentou – e eu concordo com ela – que “[…]parece que chegamos a algo quase patológico, essa coisa de registrar a si próprio todo dia. Isso não faz nenhum sentido para mim, eu até entendo esse impulso, mas acho que passamos da linha, é algo que não é mais natural. Quem se importa tanto com isso? Quem quer ver todo momento da sua vida? […]”. Ela também contou sobre um episódio em que viu um casal no parque e ficou esperando um momento de carinho entre os 2, e ao invés disso, ambos ficaram fazendo selfies e teclando nos seus celulares.

Também entendo esse impulso, mas passou do limite. E pra que tudo isso? Quem é que se importa? Quem é que vai ver essas fotos depois?

É. Pois é…

Atualização: Saiu a notícia na página da Pinacoteca, que foram 402 mil visitantes.

402 mil visitantes, 9 obras, um selfie por obra… Nove’sfora trepa dois… Mais de 3 milhões e meio de selfies… … pra nada!

Galeria

E para quem se animou em ir ver a mostra do Ron Mueck, é bom correr. Fica até o próximo domingo, 22 de fevereiro.

Serviço

Ron Mueck
Pinacoteca de São Paulo – São Paulo
Praça da Luz, 02 – Luz
(11) 3324-1000
Até 22/02/2015 de Terça à domingo, das 10 às 17h30 – às quintas, até as 22h
R$6,00 (inteira) – quintas e sábados é grátis
Mais informações: http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca-pt/Upload/file/faqfev-fevereiro.pdf

3 comentários para “Os selfies de Ron Mueck”

disse:
Bom, no dia que fui não havia esse exagero de gente (era semana, quase horário de almoço ainda), logo os episódios de falta de noção foram mais contidos, mas não passaram despercebidos. Também tive a curiosidade de ver como era a "máscara" por trás. Achava que era maciça (sabe de nada, inocente...). Saí com a impressão que as pessoas não entenderam ironias e criticas tão ululantes quanto as de "drift" e "youth"...

disse:
Eu estive lá em julho, durante as minhas férias. Também foi uma visita tranquila, apesar da espera de 1h30 na fila. Entretanto, este fato do post me chamou a atenção, mas de apenas uma mulher, que estava sozinha, e fazia isso a cada obra que se aproximava. E insistia na melhor foto pra poder ir para a próxima obra. Cheguei a registrá-la, pois parecia que queria se exibir mais que as obras em exibição. Já eu, tive tempo de fotografar e ficar boquiaberto com tamanha realidade daquelas obras. E a maioria das pessoas estava registrando as obras e apreciando-as. Acho que agora estão indo por modismo, já que brasileiro adora a última hora até em exposição. Ou seria porque a entrada foi de graça? rss Minha primeira passada por aqui, gostei do texto! Um abraço.

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